Dava NewmanSe pesquisar Dava Newman no Google há uma fotografia que sobressai. Uma mulher loura, alta, está de pé, as mãos cobertas por luvas pretas na cintura, em posição de desafio. Tem um capacete transparente e veste um cat suit branco com um tracejado vermelho e preto. Esta espécie de “segunda pele”, criada com ligas metálicas com memória e uma complexa teia de cabos e bobines, usa uma corrente elétrica para envolver quem a veste com a quantidade certa de pressão. Quando as bobines arrefecem, o fato alivia a pressão, podendo ser retirado facilmente. Este é o trabalho da vida de Dava, especialista em engenharia biomédica aeroespacial, que estuda o desempenho do organismo nos diferentes espectros de gravidade, e que assim quer melhorar a vida de quem vai ao espaço. “Penso em ir a Marte todos os dias e trabalho para que um dos meus alunos seja o primeiro astronauta a pisar o planeta”, diz Dava, formada em engenharia biomédica aeroespacial, diretora do Programa Apollo no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Boston, ex-diretora do programa MIT Portugal, ex-administradora adjunta da NASA.

Nascida na geração Apollo, filha de pai piloto, o céu nunca foi limite e a exploração do desconhecido sempre foi um fim, assim como lhe era natural repetir os passos dos portugueses de 1500. “Seguindo a minha paixão pela exploração, segui engenharia espacial. Estava fascinada e li muito [na universidade] sobre a história da exploração do mundo – em especial a contribuição e o grande legado de portugueses como Vasco da Gama, que abriu caminho, de Pedro Álvares Cabral, do infante D. Henrique. Fiquei fascinada com a revolução tecnológica, no design dos barcos, que tornaram a exploração em algo global.” A Portugal liga-a a longa história de expedições marítimas rumo ao desconhecido e uma “determinação de ultrapassar o horizonte e os limites do conhecimento”.

Era tal o fascínio que, anos depois, na sua primeira viagem a Portugal, em 2006, as suas visitas foram ditadas por essas mesmas leituras: o Museu da Marinha, em Belém, a estátua do infante D. Henrique em Viseu, e o seu local de nascimento, no Porto, além de ter prestado homenagem a Vasco da Gama, em Sines. Fez nesse tempo parte da equipa do MIT que colaborou com as autoridades e universidades portuguesas para lançar o programa MIT Portugal. Mas a sua admiração pelo país é mais profunda.

Seis anos depois, morou durante três meses no Porto, junto ao rio Douro. Diz que é uma “cidade com uma longa e impressionante história”. “Adoro a incrível arquitetura de cada recanto, que dá à cidade uma atmosfera única.” Às suas escolhas, Dava acrescenta ainda Braga, Guimarães e toda região do Douro. “Dada a abertura dos portugueses a novas ideias e ao mundo, foi um ótimo lugar para eu viver e visitar. Magalhães e Vasco da Gama estão entre os meus heróis quando se trata de exploração”, diz.

Conhece o país de uma ponta à outra. Enquanto dirigiu o MIT Portugal calcorreou mais de sete mil quilómetros de norte a sul, além de ter ido diversas vezes aos Açores. “Demos formação em liderança aos alunos do Programa MIT Portugal do norte do país, no Parque Nacional Peneda-Gerês, com a sua beleza natural e o seu património.”

Dava Newman começou por estudar direito, mas cedo percebeu que era realmente boa em matemática, daí ter trocado as leis pela engenharia aeroespacial. Tudo a ver. É uma pessoa extremamente eclética: além de ciências, estudou filosofia e liberal arts, fez parte da equipa de basquetebol da Universidade de Notre Dame, onde se licenciou. Apaixonada pelo céu e pelo mar, Dava seguiria, mais tarde, as pegadas dos portugueses: entre 2002 e 2003 navegou, com o companheiro, Guillermo Trotti, mais de 36 mil milhas náuticas à volta do mundo, ensinando “Exploração via Espaço e Mar”. Também já foi ao espaço. Por quatro vezes liderou voos de investigação.

Quando se licenciou era uma de duas mulheres numa turma de 40 alunos. Reconhece que hoje existem mais mulheres na área, mas diz que “ainda é preciso acelerar a paridade”. Está habituada a fazer parte do grupo dos pioneiros. Foi a primeira mulher viceadministradora da NASA, nomeada por Barack Obama. Depois desta experiência, que durou dois anos, Dava voltou a aproximar-se de Portugal, ajudando “a dar forma à visão para a nossa nova parceria MIT Portugal 2030”. Diz-se “fascinada pela energia e motivação dos investigadores, empreendedores, políticos e líderes portugueses, em quebrar barreiras e fazer avançar Portugal, impulsionando projetos internacionais com impacto social”.

Dava Newman voltou a Portugal no início de outubro para a conferência anual do MIT Portugal. Daqui partirá para a Alemanha e depois para o Japão. E Marte, em que ela pensa diariamente? Só acompanhada por Guillermo. “É uma viagem de 3,5 anos para explorar e encontrar provas da existência de vida presente ou passada”, e ninguém quer ir sozinho.

por Hermínia Saraiva /// foto Marisa Cardoso

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